20.12.06

Àquela que sabe quem é.


Entende, menina?
É difícil dizer
se é você que me toca
ou se eu canto você.

És cereja do bolo
ou licor do bombom?
Um verso redondo?
Um acorde no tom?

Uma fruta vermelha,
Chocolate marrom.
Vibração da centelha
No espaço do som.

14.12.06

Soneto da Intransponibilidade

É o primeiro soneto que consigo fazer nos moldes clássicos.
Totalmente decassílabo, 14 versos em 2 estrofes de 4 e 2 estrofes de 3.
A foto é minha, e retrata a lua divinopolitana, vista da Praça do Satuário.


Soneto da Intransponibilidade


É como chegar num ponto e não passar
Por mais que a gente tenta, não consegue
Se o quanto mais se quer continuar
Aumenta esse pesar que me persegue.

Se tento reverter essa lamúria
Se eu teimo em me fazer por merecer
Esbarro na paixão que é tão espúria
Trucidante a cada novo alvorecer.

E eu que nunca fui flor - sou só galho
Não me ouvistes reclamar em estar só
Porque quão mais profundo for o talho

- Não se espante, eu comigo sou assim
- e sangre. Não te precisas sentir dó
Meu espírito seguirá até o fim!

10.12.06



Se um beija-flor pousa e te encara,
encara-o de volta firmemente.
Fita o rosto, o bico, não repara
Não procura uma beleza saliente.

Tenta adivinha o que pensara
pois um passarinho nunca mente.
Não te distraias Não te perturbes
Solidão e frieza são males das urbes
E é a voar Que tu mostra a beleza!

Parado,
és pura reflexão.

Nem pensa em buscar a câmera
Quando voltasse, já lá não estaria
Mesmo que demorasse um instante
Nesse instante é que tua atenção deveria

Estar atenta ao olhar
e a saborear o contato
do momento, de fato
Único. Ao entardecer devagar.

7.12.06

Sobre a nossa loucura.

A loucura, longe de ser uma anomalia, é a condição normal humana.

Não ter consciência dela, e ela não ser grande, é ser homem normal.
Não ter consciência dela e ela ser grande, é ser louco.
Ter consciência dela e ela ser pequena é ser desiludido.
Ter consciência dela e ela ser grande, é ser génio.

Fernando Pessoa